Thursday, October 27, 2016

A LINGUÍSTICA TEXTUAL

1. 1. Origem.
A linguística textual constitui um novo ramo da linguística, que começou a desenvolver-se na década de 60, na Europa, e, de modo especial, na Alemanha.
Sua hipótese de trabalho consiste em tomar como unidade básica, ou seja, como objeto particular de investigação, não mais a palavra ou a frase, mas sim o texto; por serem os textos a forma específica de manifestação da linguagem.
A origem do termo linguística textual pode ser encontrada em Cosériu (1955), embora, no sentido que lhe é atualmente atribuído, tenha sido empregado pela primeira vez por Weinrich (1966, 1967).
A partir dessa década, surge uma rica bibliografia sobre o assunto, destacando-se autores como Heidolph, Hartung, Isenberg, Thümmel, Hartmann, Harweg, Petöfi, Dressler, Van Dijk, Schmidt, Kummer, Wunderlich, entre outros, cujos trabalhos se desenvolvem, sobretudo, em equipes, concentradas em núcleos importantes como os de Westfalia, Münster, Colônia, Constança, Hamburgo e Bielefeld. Várias revistas dedicam-lhe números especiais, como é o caso de Replik, 1 (1982), 2; LiLi. Zeitschrift für Literaturwissenschaft und Linguistik, 2 (1972), 5; Poetics, 3 (1972); Der Deutschunterricht, 24 (1972); Langages, 26 (1977). Realizam-se, sobre o tema, congressos internacionais. Dicionários e enciclopédias de linguística documentam amplamente as novas pesquisas, podendo-se citar as obras de Lewandowski (Linguistisches Wörterbuch). Althaus, Henne e Wiegand (Lexicon der Germanistischen Linguistik) e Stammerjohann (Handbuch der Linguistik).

Importante é salientar que, devido à diversidade das concepções de texto na linguística textual, as denominações dadas à disciplina pelos autores das diversas correntes apresentam-se bastante variadas e, por vezes, desorientadoras. Têm-se, assim, além de análise transfrástica e gramática de texto, outras denominações tais como Textogia (Harweg), Teoria de Texto (Schmidt). Translinguística (Barthes), Hipersintaxe (Palek), Teoria da Estrutura do TextoEstrutura do Mundo (Petöfi) etc.

1. 2. Causas do Surgimento das Gramáticas Textuais.
Entre as causas que levaram os linguistas a desenvolverem gramáticas textuais, podem-se citar: as lacunas das gramáticas de frase no tratamento de fenômenos tais como a correferência, a pronominalização, a seleção dos artigos (definido ou indefinido), a ordem das palavras no enunciado, a relação tópico-comentário, a entoação, as relações entre sentenças não ligadas por conjunções, a concordância dos tempos verbais e vários outros que só podem ser devidamente explicados em termos de texto ou, então, com referência a um contexto situacional.
Assim, colocou-se, de imediato, um dilema: para um tratamento adequado dos fenômenos citados, bastaria fazer intervir, na gramática da frase, o contexto, ou seja, construir uma gramática do enunciado que levasse em conta o seu contexto? Ou seria necessário construir uma nova gramática – a gramática textual?
Dressler (1977) demonstra que, na verdade, são poucos os problemas da gramática que não têm alguma relação com uma linguística do texto. Pondera que, nas gramáticas da frase, ficam excluídas vastas partes da morfologia, da fonologia e da lexicologia. Já a linguística textual comporta diversas manifestações: cabe à semântica do texto explicitar o que se deve entender por significação de um texto e como ela se constitui. É tarefa da pragmática do texto dizer qual é a função de um texto no contexto (extralinguístico). A sintaxe do texto tem por encargo verificar como vem expressa sintaticamente a significação de um texto e como pode expressar o que está à sua volta. Estreitamente correlacionada à sintaxe do texto, está a fonética do texto, que, de modo análogo à fonética da frase, ocupa-se das características e dos sinais fonéticos da configuração sintática textual. Finalmente, pode-se indagar quais as contribuições que a linguística do texto pode dar a disciplinas afins não-linguísticas e de que modo pode ser enriquecida por elas: está aí o papel interdisciplinar da linguística textual.


1 . 3. Momentos.
Conte (1977) distingue três momentos fundamentais na passagem da teoria da frase à teoria de texto, frisando que não se trata de uma distinção de ordem cronológica, e sim tipológica, por não haver, entre eles, uma sucessão temporal, constituindo-se cada um deles em um tipo diferente de desenvolvimento teórico.

Apresenta, como primeiro momento, o da análise transfrástica, em que se procede à análise das regularidades que transcendem os limites do enunciado; o segundo é o da construção das gramáticas textuais; O terceiro, finalmente, é o da construção das teorias de texto.


1. 3. 1 No primeiro momento, a pesquisa circunscreve-se, ainda, a enunciados ou sequências de enunciados, partindo-se, pois, destes em direção ao texto, definido, por exemplo, por Isenberg (1970) como “sequência coerente de enunciados”. Seu principal objetivo é o de estudar os tipos de relação que se podem estabelecer entre os diversos enunciados que compõem uma sequência significativa.
Entre essas relações, ocupam em primeiro plano as relações referenciais, em particular a correferência, que é considerada como um dos principais fatores de coesão textual.
Nesta linha, podem-se citar os trabalhos de Harweg (1968), para quem são os pronomes que constituem um texto em texto. Classifica como pronome toda e qualquer expressão linguística que retoma (como substituens) outra expressão linguística co-referencial (substituendum). Assim, define o texto como uma sucessão de unidades linguísticas constituída mediante uma concatenação pronominal ininterrupta.
Mesmo dentro dessa linha de pesquisa, encontram-se orientações bastante heterogêneas: umas estruturalistas (H. Weinrich, R. Harweg), outras gerativistas (H. Isenberg, W. Thummel, R. Steinitz, L. Karttunen). Embora se deva reconhecer que, nesse primeiro momento, deu-se um passo à frente, ao se superarem os limites da frase, e que se preparou, de certa forma, o terreno para uma gramática textual, não se pode dizer, porém, que se tenha chegado a um tratamento autônomo do texto, nem que se tenha construído um modelo teórico capaz de garantir um tratamento homogêneo dos fenômenos pesquisados.
1. 3. 2 A gramática textual surgiu com a finalidade de refletir sobre fenômenos linguísticos inexplicáveis por meio de uma gramática do enunciado. O que a legitima é, pois, a descontinuidade existente entre enunciado e texto, já que há entre ambos uma diferença de ordem qualitativa (e não meramente quantitativa).

Sendo o texto muito mais que uma simples sequência de enunciados, a sua compreensão e a sua produção derivam de uma competência específica do falante – a competência textual – que se distingue da competência frasal ou linguística em sentido estrito [como a descreve, por exemplo, Chomsky (1965)]. Todo falante de uma língua tem a capacidade de distinguir um texto coerente de um aglomerado incoerente de enunciados, e esta competência é, também, especificamente linguística – em sentido amplo. Qualquer falante é capaz de parafrasear um texto, de resumi-lo, de perceber se está completo ou incompleto, de atribuir-lhe um título ou, ainda, de produzir um texto a partir de um título dado. São estas habilidades do usuário da língua que justificam a construção de uma gramática textual, cujas tarefas básicas são:
a) verificar o que faz com que um texto seja um texto, isto é, determinar os seus princípios de constituição, os fatores responsáveis pela sua coerência, as condições em que se manifesta a textualidade (Texthäftigkeit);
b) levantar critérios para a delimitação de textos, já que a completude é uma das características essenciais do texto;
c) diferenciar as várias espécies de textos.

Lang (1971), postulando ser o texto “o resultado de operações de integração”, ressalta que a significação de um texto (ou, ainda, a informação que ele veicula) constitui um todo, diferente da soma das significações das frases que o constituem, visto possuir, com relação a esta, um “suplemento de significação”.
Entre os vários modelos de gramáticas textuais, destaca-se o de Petöfi.
O modelo de Petöfi é uma gramática textual com uma base textual fixada de modo não-linear (Textgrammatik mit micht-linear festgelegter Textbasis); isto é, a base textual consta de uma representação semântica, indeterminada com respeito às manifestações lineares das sequências de enunciados. É a parte transformacional que determina as manifestações lineares do texto. Petöfi postula ser este modelo de gramática apto a tornar possível: a) a análise de textos, isto é, a atribuição a uma manifestação linear de todas as bases textuais possíveis; b) a síntese de textos, ou seja, a geração de todas as possíveis bases textuais; c) a comparação de textos. Neste modelo, o léxico, com suas representações semânticas intencionais, assume função relevante.
A gramática textual constitui, segundo Petöfi, apenas um dos componentes da teoria de texto por ele projetada.
Passa-se, assim, ao terceiro momento citado por Conte, o das teorias de texto.
1. 3. 3 No terceiro momento, adquire particular importância o tratamento dos textos no seu contexto pragmático: o âmbito de investigação se estende do texto ao contexto, entendido, em geral, como conjunto de condições – externas ao texto – da produção, da recepção e da interpretação do texto.
Para o surgimento das teorias de texto contribuíram, de maneira relevante, a teoria dos atos de fala, a lógica das ações e a teoria lógico-matemática dos modelos. Por outro lado, a incorporação da pragmática aos estudos linguísticos levou a posicionamentos diversos por parte dos vários autores. Para uns, como é o caso de Dressler, a pragmática constitui apenas um componente acrescentado a posteriori a um modelo preexisteme de gramática textual, cabendo-lhe tão-somente dar conta da situação comunicativa na qual o texto é introduzido. Outros postulam um componente pragmático integrado à descrição linguística, como Schmidt, para quem a inserção da pragmática significa a evolução da linguística textual em direção a uma teoria pragmática do texto, que tem como ponto de partida o ato de comunicação – com todos os seus pressupostos psicológicos e sociológicos – inserido numa específica situação comunicativa.
Para Schmidt, o ato de comunicação, com forma específica de interação social, torna-se o explicandum da linguística, de modo que a competência que constitui a base empírica da teoria de texto deixa de ser a competência textual, passando a ser a competência comunicativa (capacidade de o falante empregar adequadamente a linguagem nas diversas situações de comunicação). Com base nos jogos verbais de Wittgenstein (Sprachspiele) e na lógica das ações de von Wright, Schmidt projeta a teoria dos jogos de ação comunicativa (kommunikative Handlungsspiele), programa bastante ambicioso que transcende os limites da teoria linguística stricto sensu.


(Continua...)

Tuesday, October 25, 2016

A DICOTOMIA LÍNGUA/FALA.

Língua/fala.
          Esta é a dicotomia Saussuriana básica e, juntamente com o par sincronia/diacronia, constitui uma das mais fecundas. Fundamentada na oposição social/individual, revelou-se com o tempo extremamente profícua. O que é fato da língua (langue) está no campo social; o que é fato da fala ou discurso (parole) situa-se na esfera do individual. Repousando sua dicotomia na Sociologia, ciência nascente e já de grande prestígio então, Saussure afirma e adverte ao mesmo tempo: "a linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro".

A língua.
          Do exame exaustivo do Curso, depreendemos três concepções para língua: acervo linguístico, instituição social e realidade sistemática e funcional. Analisemo-las à luz do CLG.
          - A língua como acervo linguístico. A língua é uma realidade psíquica formada de significado e imagens acústicas; "constitui-se num sistema de signos, onde, de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica, onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas"; é "um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou mais exatamente, nos cérebros dum conjunto de indivíduos"; a língua é "uma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos".
          A língua, como acervo linguístico, é "um conjunto de hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender" e "as associações ratificadas pelo consentimento coletivo, e cujo conjunto constitui a língua, são realidades que têm sua sede no cérebro".
          A língua, enquanto acervo, guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência. Disso nos dá testemunho o Latim, símbolo permanente da cultura e das instituições do povo romano.
          - A língua como instituição social. Saussure considera que a língua "não está completa em nenhum indivíduo, e só na massa ela existe de modo completo", por isso, ela é, ao mesmo tempo, realidade psíquica e instituição social. Para Saussure, a língua "é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos"; é "a social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade".
        - A língua como realidade sistemática e funcional. Este é o conteúdo mais importante do conceito saussuriano a respeito da língua.  Para o mestre de Genebra, a língua é, antes de tudo, "um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas; é um código, um sistema, onde, "de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica". Saussure vê a língua como um objeto de "natureza homogênea" e que, portanto, se enquadra perfeitamente na sua definição basilar: "a língua é um sistema de signos que exprimem ideias".
          A fala, ao contrário da língua, Saussure a apresenta  multifacetada e heterogênea. Diz o mestre que "a fala é um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distinguir: 1º) as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal; 2º) o mecanismo psícofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações. Saussure classifica a fala como o "lado executivo" da linguagem, cuja "execução jamais é feita pela massa; é sempre individual e dela o indivíduo é sempre senhor, nós a chamaremos fala". E o completaríamos: fala em oposição a língua. A fala é a própria língua em ação, enérgeia (atividade) e não érgon (produto).
        Aprofundando a base teórica dessa dicotomia fundamental para a compreensão da obra de Saussure, somos levados a reconhecer a influência incontestável e decisiva que o debate entre os dois expoentes da Sociologia de então, Durkheim e Tarde, exerceu sobre ele. Sua dicotomia parece ter sido uma tentativa de conciliação entre as duas posições sociológicas vigentes. Da ideia de fait social (fato social), de Durkheim, procede a postulação da língua, segundo Lepschy (1971): Porque ambas [tanto a ideia de língua, como a de fato social] se referem a fatos psicossoaciais, enxternos ao indivíduo, sobre o qual exercem uma contrainte (coerção), e existentes na consciência coletiva do grupo social.
          Por outro lado, o reconhecimento do elemento individual, a fala, estaria em consonância com as ideias de Gabriel Tarde. É oportuno lembrar também a concepção durkheimiana, segundo a qual a sociedade prima sobre o indivíduo, pois afirma Giani (1975), "o controle social existe em função da manutenção da organização social". O homem não passa de uma parcela do pensamento coletivo, ainda segundo Giani: "o indivíduo é, em grande parte, aquilo que a sociedade espera que ele seja. Cada grupo social incute em seus membros um conjunto de maneiras de pensar, sentir e agir". Diante disso, compreende-se por que razão Saussause atribuiu papel destacado ao estudo da língua e minimizou a fala.
          Para Saussure, sendo a língua uma instituição social, socialmente é que devem ser estudados os seus signos, um vez que "o signo é social por natureza". Considera ele que a língua, como representação coletiva, se impõe ao indivíduo inapelavelmente. Nenhum indivíduo tem a faculdade de criar a língua, nem de modificá-la conscientemente. Ela é como uma armadura dentro da qual nos movimentamos no dia-a-dia da interação humana.. Como qualquer outra instituição social, a língua se impõe ao indivíduo coercitivamente. Por isso, ela constitui um elemento de coesão e organização social.

A fala
      A fala, ao contrário da língua, por se constituir de atos individuais, torna-se múltipla, imprevisível, irredutível a uma pauta sistemática. Os atos linguísticos individuais são ilimitados, não formam um sistema. Os atos linguísticos sociais, bem diferentemente, formam um sistema, pela sua própria natureza homogênea. Ora, a Linguística como ciência só pode estudar aquilo que é recorrente, constante, sistemático. Os elementos da língua podem ser, quando muito, variáveis, mas jamais apresentam a inconstância, a irreverência, a heterogeneidade características da fala, a qual por isso mesmo, não se presta a um estudo sistemático.
          Diz-nos o mestre suiço: Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem, pode-se, enfim, fazer valer o argumento de que a faculdade natural  ou não [e para Saussure o ser natural ou não é irrelevante: preocupa-se unicamente com a língua em si mesma] de articular palavras não se exerce senão com a ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade; não é, então, ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem.
          E, sustentando a autonomia dos estudos da língua, afirma: "a língua é uma coisa de tal como distinta que um homem privado do uso da fala conserva a língua, contanto que compreenda os signos vocais que ouve".
          Não obstante, Saussure insiste sempre na interdependência dos dois constituintes da linguagem:
          ... esses dois  objetos estão estreitamente ligados e se implicam mutuamente: língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça.
           E adverte: "historicamente o fato da fala vem sempre antes", É importante, a propósito, registrar a concessão feita por Saussure ao elemento individual, com toda a certeza inspirada em Gabriel Tarde: "é a fala que faz evoluir a língua: são impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nosso hábitos linguísticos".
          É tal a interdependência entre a língua e a fala que Sausurre considere a língua, ao mesmo tempo, instrumento e produto da fala. O próprio mecanismo de funcionamento da linguagem repousa nessa interdependência, como ressalta Saussure: Como se imaginaria associar uma ideia a uma imagem verbal, se não se surpreendesse de início esta associação num ato de fala? Por outro lado, é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna; ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências.
          Depreende-se do arrazoado saussuriano que tanto o funcionamento quanto a exploração das potencialidades da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos língua e fala.
          A feliz dicotomia língua/fala é o ponto de partida para Saussure postular uma Linguística da língua e uma Linguística da fala (embora Mounin levante dúvida a respeito da autenticidade dessa postulação por parte do mestre, Mounin prefere atribui-la a Bally e Sechehaye), sendo que, para o mestre genebrino, a Linguística propriamente dita é aquela cujo único objeto é a língua: "Unicamente desta última é que cuidaremos", ressalva Saussure.
          Desse modo, vemos que Saussure realmente tinha plena consciência da natureza opositiva dos fenômenos linguísticos. Eis suas próprias palavras: "Esta é a primeira bifurcação que se encontra se procura estabelecer a teoria da linguagem".
     
Sistema/Não-Sistema
          A razão de Saussure haver preferido tomar o caminho da língua quando se viu diante de sua famosa bifurcação encontra-se em outra oposição consequente: sistema/não-sistema, isto é, sistema : língua :: não-sistema : fala.
          Sendo o sistema superior ao indivíduo (supra-individual), todo elemento linguístico deve ser estudado a partir de suas relações com os outros elementos do sistema e segundo sua função (a língua é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica), e não por suas características extralinguísticas: físicas, psicológicas, etc. O conhecido exemplo do jogo de xadrez esclarece cabalmente o pensamento saussuriano nesse particular.
          As peças de um jogo de xadrez são definidas unicamente segundo suas funções e de acordo com as regras do jogo. A forma, a dimensão e a matéria de cada peça constituem propriedades puramente físicas e acidentais, que podem variar extremamente sem comprometer a identidade da peça.  Essas características físicas são irrelevantes para o funcionamento do sistema (= o jogo de xadrez). Uma peça até pode ser substituída por outra, desde que a substituta venha a ser utilizada conforme as regras do jogo. Levando para o sistema linguístico o exemplo de Saussure, temos que todo elemento linguístico - uma vogal, uma consoante, um acento, um fonema, um morfema, etc. - deve ser definido linguisticamente apenas de acordo com suas relações (sintagmáticas e paradigmáticas) com os outros elementos ou por sua função no sistema, e não levando-se em conta suas acidentais propriedades: modo de formação, estrutura acústica, variantes morfofonêmicas, etc. Aqui torna-se pertinente introduzir outra postulação saussuriana, segundo a qual
          - "A língua é uma Forma e não uma Substância".
          Forma, para Saussure, é usada no sentido filosófico, isto é, como essência, e não no sentido estético, como aparência. A teia de relações entre os elementos linguísticos é que constitui a forma. Os elementos da rede constituem a substância. Voltando ao exemplo do jogo de xadrez, diríamos que as regras do jogo (a teia de relações entre as peças) estão para forma, assim como as peças do jogo estão para a substância. Uma frase como: "Vô comprá dois pão" apresenta alteração apenas na substância. Sua estrutura, apesar do fator extralinguístico "erro" (desvio em relação  à norma culta), continua a ser a de uma frase da língua portuguesa. Ela conserva toda a gramaticalidade sintática do sistema linguístico português, isto é, da língua portuguesa, e toda a coerência interna inerente aos elementos desse sistema: (sujeito) + verbo auxiliar + objeto (determinante + determinado). Portanto, sua forma, o que é de fato relevante para o funcionamento do sistema, não sofreu em nada com a mudança acidental das propriedades físicas de sua substância. Dito de outro modo: forma : língua :: substância : fala.
          Mesmo tendo dado tanta ênfase ao estudo da língua, Saussure não deixou de tratar também da substância (fala), reconhecendo que a função é fazer a ligação com a forma, que é, em última análise, para ele, a verdade total. Reportando-nos ao pensamento linguístico da Grécia Antiga, diríamos que Saussure admitiu tacitamente que a língua não é só analogia, ela tem também as suas sólidas e saudáveis anomalias.
           Cabe-se entretanto, chamar a atenção para o fato de que, a nosso ver, o conceito de forma (estrutura) não exclui o componente semântico. Ao contrário, o componente semântico é que dá sentido à noção de forma, sem o quê, forma corre o risco de tornar-se letra morta, concepção sem serventia para a ciência linguística, principalmente para a Linguística dita estrutural. Como adverte o Prof. Silvio Elia (1978: 120), "linguagem é significação".
           Desse modo, concebemos forma como coerência sintática + coerência semântica. Coerência sintática (espécie de sintaxe mental ou estruturação do pensamento) existe, por exemplo, tanto em "O menino chutou a bola" como em "A bola chutou o menino". Em ambas as orações, é inegável a realização sintaticamente coerente de um dos padrões frasais básicos da língua portuguesa, isto é, sujeito + verbo + objeto direto. Só a primeira frase, entretanto, encontra correspondência conceitual (feed-back) ou repercussão linguística no espírito do falante, justamente por ser a única que contém uma verdade semântica confiável, uma coerência significativa, que constitui, juntamente com a coerência sintática da frase, um todo individualizador e pertinente do ponto de vista da intercomunicação linguística.

Thursday, October 20, 2016

CARACTERÍSTICAS DO SIGNO LINGUÍSTICO


1. A arbitrariedade do signo.
Uma das teses mais controvertidas de Saussure é a que afirma ser o signo linguístico arbitrário: “o vínculo que une o significante ao significado é arbitrário” (Saussure, 1972). Assim, o significado “boi” tem diferentes significantes em diferentes línguas:
A palavra arbitrário significa duas coisas diferentes: em primeiro lugar, ela nos diz que não há nenhum tipo de relação intrínseca ou de causalidade necessária entre os diferentes planos de expressão acima apresentados e o plano de conteúdo que elas traduzem; em segundo lugar, a palavra arbitrário não significa que o PE (plano de expressão) dependa da livre escolha do falante, visto que nenhum indivíduo pode mudar o signo estabelecido pelo seu grupo linguístico. Arbitrário equivale melhor a imotivado, já que o significante não guarda nenhum vínculo de tipo natural com o significado (Saussure, 1972. 101).
Mas, pergunta-se Saussure, não existiria esse vínculo natural nos estágios mais arcaicos das línguas? Nas onomatopeias, por exemplo, que são elementos cujo PE se forma a partir dos sons evocados?
Comparando-se diferentes vozes de animais vê-se que até mesmo as onomatopeias se sujeitam à especial reconfiguração que cada língua lhes imprime.

PC                            PE
Voz do cuco            português            cuco
                                  francês                  coucou       
                                  latim                     cuculus
                                  inglês                   cuckoo       
                                  alemão                 kuckuck
                 
Voz do cão              português            au au
                                  espanhol             guau guau     
                                  francês                 ouaoua     
                                  alemão                 wauwau                    

Voz do gato            português            miar
                                 francês                  miauler     
                                 alemão                 miauen      
                                 inglês                   to mew

Com efeito, se cada signo fosse apenas uma imitação do seu objeto, esse signo seria explicável em si mesmo, independentemente de outros signos e não teria nenhum tipo de relação interna necessária para com os demais signos da língua (Cf. Ducrot-Todorov, 1972). É o que expressa Reznikov (1972) quando escreve que “a falta de vínculos naturais e de semelhança entre signos e objeto designado e a constatação de uma certa arbitrariedade em suas relações não só não supõem um obstáculo para a importante função que o signo desempenha no processo cognoscitivo, senão que constituem a condição necessária para a formação de noções que reflitam adequadamente os objetos e fenômenos (...) em seus aspectos gerais e essenciais”.
Pode-se distinguir, como faz Saussure (1972) entre um arbitrário absoluto e um arbitrário relativo (Cf. Ducrot­- Todorov, 1972): o primeiro refere-se à instituição do signo tomado isoladamente e o segundo refere-se à instituição do signo enquanto elemento componente de uma estrutura linguística, sujeito, portanto, às constrições do sistema. Num exemplo claro, é graças à existência, na língua portuguesa, de uma forma produtiva como o sufixo verbal [-ou] para o pretérito que Carlos Drummond de Andrade pôde produzir, por analogia com “amar/amou”, o neologismo “almou” (in Amar-Amara):
Por que amou, por que almou
se sabia
proibido passear sentimentos
etc.
Nas palavras compostas e nas formas flexionadas existe uma motivação relativa já que elas “se constroem sempre de modo idêntico para representar idênticas relações de significados” (Dinneen, 1970).
O que é importante destacar nesta lição de Saussure é que a substância do conteúdo e a substância da expressão não contam, absolutamente, como tais, para a fundação do signo e da função linguística: o que conta é a combinação delas para criar uma forma, coisa que Saussure mesmo explicita quando afirma serem igualmente psíquicas as duas partes do signo. (Cf. Malmberg, 1968) Um sistema linguístico combina diferenças de sons com diferenças de idéias, e assim instaura um sistema de valores. A característica da instituição linguística é manter o paralelismo entre esses dois tipos de diferenças, de tal modo que a mudança efetuada num desses planos repercuta perceptivelmente no outro plano.
A linguística, diz Saussure, é, na realidade, apenas parte de uma ciência geral mais vasta, para a qual propôs o nome de Semiologia e que estudaria “a vida dos signos no seio da vida social”. Importa então, no terreno linguístico, proceder primeiramente à análise do signo. Saussure declara-o arbitrário, verificação de bom senso, sem dúvida, mas que ele formulou, com vigor, à guisa de princípio.  A idéia de boeuf [“boi”] não está ligada por nenhuma relação interior à seqüência de sons b-ö-f, que lhe serve de significante; poderia muito bem ser representada por qualquer outra: “a prova está nas diferenças entre as línguas e na própria existência de línguas diferentes: o significado ‘boeuf’ tem por significante b-ö-f, de um lado da fronteira da França, e o-k-s (Ochs) do outro".
A palavra arbitrário não suscita a ideia de que o significante dependa de uma livre escolha do falante, mas quer dizer “que ele é imotivado, isto é, arbitrário com relação ao significa­do”. Saussure afasta imediatamente uma objeção: as onomatopeias pareceriam indicar que a escolha do signo nem sempre é arbitrária, mas as onomatopeias nunca constituem elementos orgânicos de um sistema linguístico; aliás, são pouco numerosas e sua escolha (cf. glu-glu, tique-taque, ...) já é, de algum modo, arbitrária, pois elas constituem, na realidade, apenas “a imitação aproximativa e meio convencional de certos ruídos (compare-se o francês ouaoua com o alemão wauwau). Além disso, uma vez introduzidas na língua, são mais ou menos arrastadas na evolução fonética, morfológica, etc. que sofrem as outras palavras (cf. pigeon, do latim vulgar pipio, ele próprio derivado de uma onomatopeia): prova evidente de que perderam algo de seu caráter primeiro para assumir o do signo linguístico em geral, que é imotivado".
Saussure, todavia, atenuou o caráter absoluto de sua declaração acerca da arbitrariedade do signo, admitindo que há no mecanismo da língua certos casos em que “o signo pode ser relativamente motivado. Assim, vinte é motivado, mas dezenove não o é no mesmo grau, porque evoca os termos de que se compõe e outros que lhe são associados, por exemplo, dez, nove, vinte e nove, dezoito [...], etc., assim também, o sufixo -eira de pereira em face de pera faz pensar em cerejeira, macieira, etc.; trata-se aqui de uma motivação morfológica e semântica que aparece em graus diversos segundo os sistemas linguísticos: o francês moderno, por exemplo, aparece como particularmente "arbitrário" graças a diferentes fatores, como os empréstimos eruditos (vejam-se os pares aveugle/cecité, eau/aqueux, etc.) ou a pobreza da composição (continent, gant diante do alemão Erd-teil, Hand-schuh, etc.).
É bom observar ainda que o emprego da palavra signo conduziu por vezes a exposição de Saussure, e, mais tarde, a de seus comentadores, a certa ambiguidade. Em realidade, após algumas hesitações, Saussure decidiu-se a substituir conceito por significado e imagem acústica por significante e reservou o termo signo para designar o total resultante da associação de um significante a um significado; segundo sua fórmula “o signo linguístico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces”, isto é, composto de uma imagem acústica (o significante) e de um conceito (o significado). É em virtude desta definição que Saussure declara que o signo linguístico é arbitrário, vale dizer, imotivado. Pois, por um lado, os significados (conceitos) formam um dado que percebemos pelos sentidos e, por outro, os significantes (imagens fônicas) nos são impostos pela pressão social no interior de uma mesma comunidade linguística e formam um sistema relacional entre si. A palavra é arbitrária com relação ao significado, mas não há arbitrariedade com relação ao sistema.

2. A linearidade dos significantes.

A segunda das características essenciais do signo linguístico, também apontada por Saussure, refere-se ao caráter linear do seu plano de expressão. Logo ao início do CLG, lemos: “Por ser de natureza auditiva, o significante se desenvolve unicamente no tempo e apresenta as características que toma do tempo: (a) representa uma extensão; e (b) essa extensão é mensurável numa única dimensão; ela é uma linha” (Saussure, 1972).
Essa linearidade, que constitui a extensão da cadeia falada e com base na qual cada elemento do plano de expressão de uma língua se coloca, é o que permite distinguirmos conceitos tais como o de sílaba (baseada num contraste entre consoantes e vogais), e o de distribuição.
O significante, sendo de natureza fônica, desenrola-se unicamente no tempo e, por conseguinte, representa uma extensão mensurável numa só dimensão. O mecanismo inteiro da língua depende desse princípio, que é um dos fatores que permitem a classificação dos segmentos linguísticos. “Por oposição aos significantes visuais (sinais marítimos, etc.) que podem oferecer complicações simultâneas em várias dimensões, os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo; seus elementos apresentam-se um após outro, formando uma cadeia. Esse caráter aparece imediatamente, tão logo sejam representados pela escrita e se substitua a linha espacial dos sinais gráficos pela sucessão no tempo.” É assim que às solidariedades de ordem sintagmática (isto é, linear) opõem-se solidariedades de ordem associativa: “Dix-neuf (dezenove) é solidário, associativamente, de dix-huit (dezoito), soixante-dix (setenta), etc. e, sintagmaticamente, de seus elementos dix (dez) e neuf (nove)... Essa dupla relação lhe confere parte de seu valor”.
2. 1. A Noção de Distribuição.
As unidades linguísticas aparecem em contextos e submetem-se às suas pressões: as partes dependem do todo de que participam. Dentro de uma frase as palavras não se dispõem ao acaso, mas em posições determinadas: o artigo, por exemplo, tem em romeno e em português a propriedade de se colocar sempre junto do substantivo com o qual forma sintagmas nominais; mas dentro do SN (sintagma nominal) o artigo português vem anteposto ao substantivo (cf. “o lobo”), ao passo que o artigo romeno se pospõe ao nome ao qual se refere (cf. lupul, “o lobo”). Diz-se, por isso, que os elementos possuem uma distribuição característica.


3. A dualidade língua/fala.
Uma distinção capital, e particularmente fecunda, foi formulada pelo mestre de Genebra entre a língua e a fala: a língua é o conjunto que serve de meio de compreensão entre os membros de uma mesma comunidade linguística; enquanto a é o uso que cada membro dessa comunidade linguística faz da língua para se fazer compreender; em outras palavras, a língua é “um sistema cujos termos são todos solidários e em que o valor de um não, resulta senão da presença simultânea dos outros”, ao passo que a fala é o ato concreto e individual das pessoas, quando utilizam o sistema numa situação determinada. Vê-se então que a língua é “um tesouro depositado pela prática da fala nos indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro, ou, mais exatamente, nos cérebros de um conjunto de indivíduos”, é concebida, ao mesmo, tempo, como uma instituição social e como um sistema de valores.

Friday, March 21, 2014

VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA LINGUÍSTICA.

A ciência que se constituiu em torno dos fatos da língua passou por três fases sucessivas antes de reconhecer qual é o seu verdadeiro e único objeto.
      Começou-se por fazer o que se chamava de "Gramática". Esse estudo, inaugurado pelos gregos, e continuado principalmente pelos franceses, é baseado na lógica e está desprovido de qualquer visão científica e desinteressada da própria língua; visa unicamente a formular regras para distinguir as formas corretas das incorretas; é uma disciplina normativa, muito afastada da pura observação e cujo ponto de vista é forçosamente estreito.
      A seguir, apareceu a Filologia. Já em Alexandria havia uma escola “filológica”, mas esse termo se vinculou sobretudo ao movimento criado por Friedrich August Wolf a partir de 1777 e que prossegue até nossos dias. A língua não é o Único objeto da Filologia, que quer, antes de tudo, fixar, interpretar, comentar os textos; este primeiro estudo a leva a se ocupar também da história literária, dos costumes, das instituições, etc.; em toda parte ela usa seu método próprio, que é a crítica. Se aborda questões lingüísticas, fá-lo sobretudo para comparar textos de diferentes épocas, determinar a língua peculiar de cada autor, decifrar e explicar inscrições redigidas numa língua arcaica ou obscura. Sem dúvida, essas pesquisas prepararam a Linguística histórica: os trabalhos de Ritschl acêrca de Plauto podem ser chamados linguísticos; mas nesse domínio a crítica filológica é falha num particular: apega-se muito servilmente à língua escrita e esquece a língua falada; aliás, a Antiguidade grega e latina a absorve quase completamente.
     O terceiro período começou quando se descobriu que as línguas podiam ser comparadas entre si. Tal foi a origem da Filologia comparativa ou da "Gramática comparada". Em 1816, numa obra intitulada Sistema da Conjugaçáo do Sânscrito, Franz Bopp estudou as relações que unem o, sânscrito ao germânico, ao grego, ao latim, etc. Bopp não era o primeiro a assinalar tais afinidades e a admitir que todas essas línguas pertencem a uma única família; isso tinha sido feito antes, dele, notadamente pelo orientalista inglês W. Jones (… 1794); algumas afirmações isoladas, porém, não provam que em 1816 já houvessem sido compreendidas, de modo geral, a significação e a importância dessa verdade: Bopp não tem; pois, o mérito da descoberta de que o sânscrito é parente de certos idiomas da Europa e da Asia, mas foi ele quem compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma. Esclarecer uma língua por meio de outra, explicar as formas duma pelas formas de outra, eis o que não fôra ainda feito.
     É de duvidar que Bopp tivesse podido criar sua ciência – pelo menos tão depressa – sem a descoberta do sânscrito. Este, como terceiro testemunho ao lado do grego e do latim, forneceu-lhe uma base de estudo mais larga e mais sólida tal vantagem foi acrescida pelo fato de que, por um feliz e inesperado acaso, o sânscrito está em condições excepcionalmente favoráveis de aclarar semelhante comparação.
     Eis um exemplo: considerando-se o paradigma do latim genus (genus, generis, genere, genera, generum, etc.) e o do grego génos (génos, géneos, génei, génes, genéon, etc.) estas séries não dizem nada quando tomadas isoladamente ou comparadas entre si. Mas a situação muda quando se lhe aproxima a série correspondente do sânscrito (ganas, ganasas, ganasi, ganassu, ganasam, etc.). Basta uma rápida observação para perceber a relação existente entre os paradigmas grego e latino. Admitindo-se provisoriamente que ganas represente a forma primitiva, pois isso ajuda a explicação, conclui-se que um “s” deve ter desaperecido nas formas gregas géne (s) os, etc., cada vez que ele se achasse colocado entre duas vogais. Conclui-se logo daí que, nas mesmas condições, o “s” se transformou em “r” em latim. Depois, do ponto de vista gramatical, o paradigma sânscrito dá precisão à noção de radical, visto corresponder esse elemento a uma unidade (ganas-) perfeitamente determinável e fixa. Somente em suas origens conheceram o grego e latim o estado representado pelo sânscrito. É, então, pela conservação de todos os “ss” indo-europeus que o sânscrito se torna, no caso, instrutivo. Não há dúvida que, em outras partes, êle guardou menos bem os caracteres do protótipo: assim, transtornou completamente o sistema vocálico. Mas, de modo geral, os elementos originários consenvados por êle ajudam a pesquisa de maneira admirável – e o acaso o tornou uma língua muito própria para esclarecer as outras num sem­número de casos.
      Desde o início vê-se surgirem, ao lado de Bopp, linguistas eminentes: Jacob Grimm, o fundador dos estudos germânicos (sua Gramática Alemã foi publicada de 1822 a 1836); Pott, cujas pesquisas etimológicas colocaram uma quantidade considerável de materiais ao dispor dos linguistas; Kuhn, cujos trabalhos se ocuparam, ao mesmo tempo, da Linguística e da Mitologia comparada; os indianistas Benfey e Aufrecht, etc.
      Por fim, entre os últimos representantes dessa escola, merecem citação particular Max Müller, G. Curtius e August Schleicher. Os três, de modos diferentes, fizeram muito pelos estudos comparativos. Max Müller os popularizou com suas brilhantes conferências (Lições Sobre a Ciência da Linguagem, 1816, em inglês); não pecou, porém, por excesso de consciência. Curtius, filólogo notável, conhecido sobretudo por seus Princípios de Etimologia Grega (1879), foi um dos primeiros a reconciliar a Gramática comparada com a Filologia clássica. Esta acompanhara com desconfiança os progressos da nova ciência e tal desconfiança se tinha tornado recíproca. Schleicher, enfim, foi o primeiro a tentar codificar os resultados das pesquisas parciais. Seu Breviário de Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas (1816) é uma espécie de sistematização da ciência fundada por Bopp. Esse livro, que durante longo tempo prestou grandes serviços, evoca melhor que qualquer outro a fisionomia dessa escola comparatista que constitui o primeiro período da Linguística indo-europeia.
      Tal escola, porém, que teve o mérito incontestável de abrir um campo novo e fecundo, não chegou a constituir a verdadeira ciência da Linguística. Jamais se reocupou em determinar a natureza do seu objeto de estudo. Ora, sem essa operação elementar, uma ciência é incapaz de estabelecer um método para si própria.
      O primeiro erro, que contém em germe todos os outros, é que nas investigações, limitadas aliás às línguas indo-europeias, a Gramática comparada jamais se perguntou a que levavam as comparações que fazia, que significavam as analogias que descobria. Foi exclusivamente comparativa, em vez de histórica. Sem dúvida; a comparação constitui condição necessária de toda reconstituição histórica. Mas por si só não permite concluir nada. A conclusão escapava tanto mais a esses comparatistas quanto consideravam o desenvolvimento de duas línguas como um naturalista o crescimento de dois vegetais. Schleicher, por exemplo, que, nos convida sempre a partir do indo-europeu, que parece portanto ser, num certo sentido, deveras historiador, não hesita em dizer que em grego “e” e “o” são dois graus (Stufen) do vocalismo. É que o sânscrito apresentaum sistema de alternâncias, vocálicas que sugere essa ideia de graus. Supondo, pois, que tais graus devessem ser vencidos separada e paralelamente em cada língua, como vegetais da mesma espécie passam, independentemente uns dos outros, pelas mesmas fases de desenvolvimento, Schleicher via no “o” grego um grau reforçado do “e” como via no ã sânscrito um reforço de ã. De fato trata-se de uma altemância indo-europeia, que se reflete de modo diferente em grego e em sânscrit,  sem que haja nisso qualquer igualdade necessária entre os efeitos gramaticais que ela desenvolve numa e noutra língua.
     Esse método exclusivamente comparativo acarreta todo um conjunto de conceitos errôneos, que não correspondem a nada na realidade e que são estranhos às verdadeiras condições de tôda linguagem. Considerava-se a língua como uma esfera à parte, um quarto reino da Natureza; daí certos modos de raciocinar que teriam causado espanto em outra ciência. Hoje não se podem mais ler oito ou dez linhas dessa época sem se ficar surpreendido pelas excentricidades do pensamento e dos termos empregados para justificá-las.
      Do ponto de vista metodológico, porém, há certo interesse em conhecer esses erros: os erros duma ciência que principia constituem a imagem ampliada daqueles que cometem os indivíduos empenhados nas primeiras pesquisas científicas; teremos ocasião de assinalar vários deles no decorrer de nossa exposição.
      Somente em 1870 aproximadamente foi que se indagou quais seriam as condições de vida das línguas. Percebeu-se então que as correspondências que as unem não passam de um dos aspectos do fenômeno linguístico, que a comparação não é senão um meio, um método para reconstituir os fatos.
      A Linguística propriamente dita, que deu à comparação o lugar que exatamente lhe cabe, nasceu do estudo das línguas românicas e das línguas germânicas. Os estudos românicos, inaugurados por Diez (sua Gramática das Línguas Românicas data de 1836-1838), contribuíram particularmente para aproximar a Linguística do seu verdadeiro objeto. Os romanistas se achavam em condições privilegiadas, destonhecidas dos indo-europeístas; conhecia-se o latim, protótipo das línguas românicas; além disso, a abundância de documentos permitia acompanhar pormenorizadamente a evolução dos idiomas. Essas duas circunstâncias limitavam o campo das conjecturas e davam a toda a pesquisa uma fisionomia particularmente concreta. Os germanistas se achavam em situação idêntica; sem dúvida, o protogermânico não é conhecido diretamente, mas a história das línguas que dele derivam, pode ser acompanhada com a ajuda de numerosos documentos, através de uma longa sequência de séculos. Também os germanistas, mais próximos da realidade, chegaram a concepções diferentes das dos primeiros indo-europeístas.
      Um primeiro impulso foi dado pelo norte-americano Whitney, autor de A Vida da Linguagem (1875). Logo após se formou uma nova escola, a dos neogramáticos (Junggram­matiker) cujos fundadores eram todos alemães: K. Brugmann, H. Osthoff, os germanistas W. Braune, E. Sievers, H. Paul, o eslavista Leskien etc. Seu mérito consistiu em colocar em perspectiva histórica todos os resultados da comparação e por ela encadear os fatos em sua ordem natural.

APRESENTAÇÃO

Este espaço é feito para os estudiosos da Linguística, uma ciência fascinante.

Prof. Manoel Lopes Jr 
(Garanhuns - PE)