A LINGUÍSTICA TEXTUAL
1. 1. Origem.
A linguística
textual constitui um novo ramo da linguística, que começou a desenvolver-se na
década de 60, na Europa, e, de modo especial, na Alemanha.
Sua hipótese de
trabalho consiste em tomar como unidade básica, ou seja, como objeto particular
de investigação, não mais a palavra ou a frase, mas sim o texto; por serem os
textos a forma específica de manifestação da linguagem.
A origem do termo
linguística textual pode ser encontrada em Cosériu (1955), embora, no sentido
que lhe é atualmente atribuído, tenha sido empregado pela primeira vez por
Weinrich (1966, 1967).
A partir dessa
década, surge uma rica bibliografia sobre o assunto, destacando-se autores como
Heidolph, Hartung, Isenberg, Thümmel, Hartmann, Harweg, Petöfi, Dressler, Van
Dijk, Schmidt, Kummer, Wunderlich, entre outros, cujos trabalhos se
desenvolvem, sobretudo, em equipes, concentradas em núcleos importantes como os
de Westfalia, Münster, Colônia, Constança, Hamburgo e Bielefeld. Várias
revistas dedicam-lhe números especiais, como é o caso de Replik, 1 (1982), 2; LiLi.
Zeitschrift für Literaturwissenschaft und
Linguistik, 2 (1972), 5; Poetics,
3 (1972); Der Deutschunterricht, 24
(1972); Langages, 26 (1977). Realizam-se,
sobre o tema, congressos internacionais. Dicionários e enciclopédias de
linguística documentam amplamente as novas pesquisas, podendo-se citar as obras
de Lewandowski (Linguistisches Wörterbuch).
Althaus, Henne e Wiegand (Lexicon der
Germanistischen Linguistik) e
Stammerjohann (Handbuch der Linguistik).
Importante é
salientar que, devido à diversidade das concepções de texto na linguística
textual, as denominações dadas à disciplina pelos autores das diversas
correntes apresentam-se bastante variadas e, por vezes, desorientadoras.
Têm-se, assim, além de análise
transfrástica e gramática de texto,
outras denominações tais como Textogia
(Harweg), Teoria de Texto (Schmidt). Translinguística (Barthes), Hipersintaxe (Palek), Teoria da Estrutura do Texto – Estrutura do Mundo (Petöfi) etc.
1. 2. Causas do Surgimento das Gramáticas Textuais.
Entre as causas que
levaram os linguistas a desenvolverem gramáticas textuais, podem-se citar: as
lacunas das gramáticas de frase no tratamento de fenômenos tais como a
correferência, a pronominalização, a seleção dos artigos (definido ou
indefinido), a ordem das palavras no enunciado, a relação tópico-comentário, a entoação,
as relações entre sentenças não ligadas por conjunções, a concordância dos
tempos verbais e vários outros que só podem ser devidamente explicados em
termos de texto ou, então, com referência a um contexto situacional.
Assim, colocou-se,
de imediato, um dilema: para um tratamento adequado dos fenômenos citados, bastaria
fazer intervir, na gramática da frase, o contexto,
ou seja, construir uma gramática do enunciado que levasse em conta o seu contexto?
Ou seria necessário construir uma nova gramática – a gramática textual?
Dressler (1977)
demonstra que, na verdade, são poucos os problemas da gramática que não têm
alguma relação com uma linguística do texto. Pondera que, nas gramáticas da
frase, ficam excluídas vastas partes da morfologia, da fonologia e da lexicologia.
Já a linguística textual comporta diversas manifestações: cabe à semântica do texto explicitar o que se
deve entender por significação de um texto e como ela se constitui. É tarefa da
pragmática do texto dizer qual é a
função de um texto no contexto (extralinguístico). A sintaxe do texto tem por encargo verificar como vem expressa
sintaticamente a significação de um texto e como pode expressar o que está à
sua volta. Estreitamente correlacionada à sintaxe do texto, está a fonética do texto, que, de modo análogo
à fonética da frase, ocupa-se das características e dos sinais fonéticos da configuração
sintática textual. Finalmente, pode-se indagar quais as contribuições que a
linguística do texto pode dar a disciplinas afins não-linguísticas e de que
modo pode ser enriquecida por elas: está aí o papel interdisciplinar da
linguística textual.
1 . 3. Momentos.
Conte (1977)
distingue três momentos fundamentais na passagem da teoria da frase à teoria de
texto, frisando que não se trata de uma distinção de ordem cronológica, e sim
tipológica, por não haver, entre eles, uma sucessão temporal, constituindo-se
cada um deles em um tipo diferente de desenvolvimento teórico.
Apresenta, como
primeiro momento, o da análise
transfrástica, em que se procede à análise das regularidades que
transcendem os limites do enunciado; o segundo é o da construção das gramáticas
textuais; O terceiro, finalmente, é o da construção das teorias de texto.
1. 3. 1 – No primeiro momento, a pesquisa circunscreve-se, ainda, a enunciados ou sequências de enunciados, partindo-se, pois, destes em direção ao
texto, definido, por exemplo, por Isenberg (1970) como “sequência coerente de
enunciados”. Seu principal objetivo é o de estudar os tipos de relação que se
podem estabelecer entre os diversos enunciados que compõem uma sequência
significativa.
Entre essas relações, ocupam em primeiro plano as relações referenciais, em
particular a correferência, que é considerada como um dos principais fatores de
coesão textual.
Nesta linha, podem-se citar os trabalhos de Harweg (1968), para quem são os
pronomes que constituem um texto em texto. Classifica
como pronome toda e qualquer expressão linguística que retoma (como substituens) outra expressão linguística
co-referencial (substituendum). Assim,
define o texto como uma sucessão de unidades linguísticas constituída mediante
uma concatenação pronominal ininterrupta.
Mesmo dentro dessa linha de pesquisa, encontram-se orientações bastante
heterogêneas: umas estruturalistas (H. Weinrich, R. Harweg), outras
gerativistas (H. Isenberg, W. Thummel, R. Steinitz, L. Karttunen). Embora se
deva reconhecer que, nesse primeiro momento, deu-se um passo à frente, ao se
superarem os limites da frase, e que se preparou, de certa forma, o terreno
para uma gramática textual, não se pode dizer, porém, que se tenha chegado a um
tratamento autônomo do texto, nem que se tenha construído um modelo teórico capaz
de garantir um tratamento homogêneo dos fenômenos pesquisados.
1. 3. 2 – A gramática textual surgiu com a finalidade de refletir sobre fenômenos
linguísticos inexplicáveis por meio de uma gramática do enunciado. O que a
legitima é, pois, a descontinuidade existente entre enunciado e texto, já que
há entre ambos uma diferença de ordem qualitativa (e não meramente
quantitativa).
Sendo o texto muito mais que uma simples sequência de enunciados, a sua
compreensão e a sua produção derivam de uma competência específica do falante –
a competência textual – que se distingue da competência frasal ou linguística
em sentido estrito [como a descreve, por exemplo, Chomsky (1965)]. Todo falante
de uma língua tem a capacidade de distinguir um texto coerente de um aglomerado
incoerente de enunciados, e esta competência é, também, especificamente linguística
– em sentido amplo. Qualquer falante é capaz de parafrasear um texto, de
resumi-lo, de perceber se está completo ou incompleto, de atribuir-lhe um
título ou, ainda, de produzir um texto a partir de um título dado. São estas
habilidades do usuário da língua que justificam a construção de uma gramática
textual, cujas tarefas básicas são:
a) verificar o que faz com que um texto seja um texto, isto é, determinar
os seus princípios de constituição,
os fatores responsáveis pela sua coerência,
as condições em que se manifesta a textualidade (Texthäftigkeit);
b) levantar critérios para a delimitação de textos, já que a completude é uma das características
essenciais do texto;
c) diferenciar as várias espécies de textos.
Lang (1971),
postulando ser o texto “o resultado de operações de integração”, ressalta que a
significação de um texto (ou, ainda, a informação que ele veicula) constitui um
todo, diferente da soma das significações das frases que o constituem, visto
possuir, com relação a esta, um “suplemento de significação”.
Entre os vários modelos de gramáticas textuais, destaca-se o de Petöfi.
O modelo de Petöfi é uma gramática textual com uma base textual fixada de
modo não-linear (Textgrammatik mit
micht-linear festgelegter Textbasis); isto é, a base textual consta de uma
representação semântica, indeterminada com respeito às manifestações lineares
das sequências de enunciados. É a parte transformacional que determina as
manifestações lineares do texto. Petöfi postula ser este modelo de gramática
apto a tornar possível: a) a análise de
textos, isto é, a atribuição a uma manifestação linear de todas as bases
textuais possíveis; b) a síntese de
textos, ou seja, a geração de todas as possíveis bases textuais; c) a comparação de textos. Neste modelo,
o léxico, com suas representações semânticas intencionais, assume função
relevante.
A gramática textual constitui, segundo Petöfi, apenas um dos componentes da
teoria de texto por ele projetada.
Passa-se, assim, ao terceiro momento citado por Conte, o das teorias de
texto.
1. 3. 3 – No terceiro momento, adquire particular importância o tratamento dos
textos no seu contexto pragmático: o âmbito de investigação se estende do texto
ao contexto, entendido, em geral, como conjunto de condições – externas ao
texto – da produção, da recepção e da interpretação do texto.
Para o surgimento das teorias de texto contribuíram, de maneira relevante, a teoria dos atos de fala, a lógica das ações e a teoria lógico-matemática dos modelos.
Por outro lado, a incorporação da pragmática aos estudos linguísticos levou a
posicionamentos diversos por parte dos vários autores. Para uns, como é o caso
de Dressler, a pragmática constitui apenas um componente acrescentado a posteriori a um modelo preexisteme de
gramática textual, cabendo-lhe tão-somente dar conta da situação comunicativa
na qual o texto é introduzido. Outros postulam um componente pragmático integrado
à descrição linguística, como Schmidt, para quem a inserção da pragmática
significa a evolução da linguística textual em direção a uma teoria pragmática do texto, que tem como ponto de partida o ato
de comunicação – com todos os seus pressupostos psicológicos e sociológicos – inserido
numa específica situação comunicativa.
Para Schmidt, o ato de comunicação,
com forma específica de interação social, torna-se o explicandum da linguística, de modo que a competência que constitui
a base empírica da teoria de texto deixa de ser a competência textual, passando
a ser a competência comunicativa (capacidade de o falante empregar adequadamente a linguagem nas diversas
situações de comunicação). Com base nos jogos
verbais de Wittgenstein (Sprachspiele)
e na lógica das ações de von Wright,
Schmidt projeta a teoria dos jogos de
ação comunicativa (kommunikative
Handlungsspiele), programa bastante ambicioso que transcende os limites da
teoria linguística stricto sensu.
(Continua...)

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