Friday, March 21, 2014

VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA LINGUÍSTICA.

A ciência que se constituiu em torno dos fatos da língua passou por três fases sucessivas antes de reconhecer qual é o seu verdadeiro e único objeto.
      Começou-se por fazer o que se chamava de "Gramática". Esse estudo, inaugurado pelos gregos, e continuado principalmente pelos franceses, é baseado na lógica e está desprovido de qualquer visão científica e desinteressada da própria língua; visa unicamente a formular regras para distinguir as formas corretas das incorretas; é uma disciplina normativa, muito afastada da pura observação e cujo ponto de vista é forçosamente estreito.
      A seguir, apareceu a Filologia. Já em Alexandria havia uma escola “filológica”, mas esse termo se vinculou sobretudo ao movimento criado por Friedrich August Wolf a partir de 1777 e que prossegue até nossos dias. A língua não é o Único objeto da Filologia, que quer, antes de tudo, fixar, interpretar, comentar os textos; este primeiro estudo a leva a se ocupar também da história literária, dos costumes, das instituições, etc.; em toda parte ela usa seu método próprio, que é a crítica. Se aborda questões lingüísticas, fá-lo sobretudo para comparar textos de diferentes épocas, determinar a língua peculiar de cada autor, decifrar e explicar inscrições redigidas numa língua arcaica ou obscura. Sem dúvida, essas pesquisas prepararam a Linguística histórica: os trabalhos de Ritschl acêrca de Plauto podem ser chamados linguísticos; mas nesse domínio a crítica filológica é falha num particular: apega-se muito servilmente à língua escrita e esquece a língua falada; aliás, a Antiguidade grega e latina a absorve quase completamente.
     O terceiro período começou quando se descobriu que as línguas podiam ser comparadas entre si. Tal foi a origem da Filologia comparativa ou da "Gramática comparada". Em 1816, numa obra intitulada Sistema da Conjugaçáo do Sânscrito, Franz Bopp estudou as relações que unem o, sânscrito ao germânico, ao grego, ao latim, etc. Bopp não era o primeiro a assinalar tais afinidades e a admitir que todas essas línguas pertencem a uma única família; isso tinha sido feito antes, dele, notadamente pelo orientalista inglês W. Jones (… 1794); algumas afirmações isoladas, porém, não provam que em 1816 já houvessem sido compreendidas, de modo geral, a significação e a importância dessa verdade: Bopp não tem; pois, o mérito da descoberta de que o sânscrito é parente de certos idiomas da Europa e da Asia, mas foi ele quem compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma. Esclarecer uma língua por meio de outra, explicar as formas duma pelas formas de outra, eis o que não fôra ainda feito.
     É de duvidar que Bopp tivesse podido criar sua ciência – pelo menos tão depressa – sem a descoberta do sânscrito. Este, como terceiro testemunho ao lado do grego e do latim, forneceu-lhe uma base de estudo mais larga e mais sólida tal vantagem foi acrescida pelo fato de que, por um feliz e inesperado acaso, o sânscrito está em condições excepcionalmente favoráveis de aclarar semelhante comparação.
     Eis um exemplo: considerando-se o paradigma do latim genus (genus, generis, genere, genera, generum, etc.) e o do grego génos (génos, géneos, génei, génes, genéon, etc.) estas séries não dizem nada quando tomadas isoladamente ou comparadas entre si. Mas a situação muda quando se lhe aproxima a série correspondente do sânscrito (ganas, ganasas, ganasi, ganassu, ganasam, etc.). Basta uma rápida observação para perceber a relação existente entre os paradigmas grego e latino. Admitindo-se provisoriamente que ganas represente a forma primitiva, pois isso ajuda a explicação, conclui-se que um “s” deve ter desaperecido nas formas gregas géne (s) os, etc., cada vez que ele se achasse colocado entre duas vogais. Conclui-se logo daí que, nas mesmas condições, o “s” se transformou em “r” em latim. Depois, do ponto de vista gramatical, o paradigma sânscrito dá precisão à noção de radical, visto corresponder esse elemento a uma unidade (ganas-) perfeitamente determinável e fixa. Somente em suas origens conheceram o grego e latim o estado representado pelo sânscrito. É, então, pela conservação de todos os “ss” indo-europeus que o sânscrito se torna, no caso, instrutivo. Não há dúvida que, em outras partes, êle guardou menos bem os caracteres do protótipo: assim, transtornou completamente o sistema vocálico. Mas, de modo geral, os elementos originários consenvados por êle ajudam a pesquisa de maneira admirável – e o acaso o tornou uma língua muito própria para esclarecer as outras num sem­número de casos.
      Desde o início vê-se surgirem, ao lado de Bopp, linguistas eminentes: Jacob Grimm, o fundador dos estudos germânicos (sua Gramática Alemã foi publicada de 1822 a 1836); Pott, cujas pesquisas etimológicas colocaram uma quantidade considerável de materiais ao dispor dos linguistas; Kuhn, cujos trabalhos se ocuparam, ao mesmo tempo, da Linguística e da Mitologia comparada; os indianistas Benfey e Aufrecht, etc.
      Por fim, entre os últimos representantes dessa escola, merecem citação particular Max Müller, G. Curtius e August Schleicher. Os três, de modos diferentes, fizeram muito pelos estudos comparativos. Max Müller os popularizou com suas brilhantes conferências (Lições Sobre a Ciência da Linguagem, 1816, em inglês); não pecou, porém, por excesso de consciência. Curtius, filólogo notável, conhecido sobretudo por seus Princípios de Etimologia Grega (1879), foi um dos primeiros a reconciliar a Gramática comparada com a Filologia clássica. Esta acompanhara com desconfiança os progressos da nova ciência e tal desconfiança se tinha tornado recíproca. Schleicher, enfim, foi o primeiro a tentar codificar os resultados das pesquisas parciais. Seu Breviário de Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas (1816) é uma espécie de sistematização da ciência fundada por Bopp. Esse livro, que durante longo tempo prestou grandes serviços, evoca melhor que qualquer outro a fisionomia dessa escola comparatista que constitui o primeiro período da Linguística indo-europeia.
      Tal escola, porém, que teve o mérito incontestável de abrir um campo novo e fecundo, não chegou a constituir a verdadeira ciência da Linguística. Jamais se reocupou em determinar a natureza do seu objeto de estudo. Ora, sem essa operação elementar, uma ciência é incapaz de estabelecer um método para si própria.
      O primeiro erro, que contém em germe todos os outros, é que nas investigações, limitadas aliás às línguas indo-europeias, a Gramática comparada jamais se perguntou a que levavam as comparações que fazia, que significavam as analogias que descobria. Foi exclusivamente comparativa, em vez de histórica. Sem dúvida; a comparação constitui condição necessária de toda reconstituição histórica. Mas por si só não permite concluir nada. A conclusão escapava tanto mais a esses comparatistas quanto consideravam o desenvolvimento de duas línguas como um naturalista o crescimento de dois vegetais. Schleicher, por exemplo, que, nos convida sempre a partir do indo-europeu, que parece portanto ser, num certo sentido, deveras historiador, não hesita em dizer que em grego “e” e “o” são dois graus (Stufen) do vocalismo. É que o sânscrito apresentaum sistema de alternâncias, vocálicas que sugere essa ideia de graus. Supondo, pois, que tais graus devessem ser vencidos separada e paralelamente em cada língua, como vegetais da mesma espécie passam, independentemente uns dos outros, pelas mesmas fases de desenvolvimento, Schleicher via no “o” grego um grau reforçado do “e” como via no ã sânscrito um reforço de ã. De fato trata-se de uma altemância indo-europeia, que se reflete de modo diferente em grego e em sânscrit,  sem que haja nisso qualquer igualdade necessária entre os efeitos gramaticais que ela desenvolve numa e noutra língua.
     Esse método exclusivamente comparativo acarreta todo um conjunto de conceitos errôneos, que não correspondem a nada na realidade e que são estranhos às verdadeiras condições de tôda linguagem. Considerava-se a língua como uma esfera à parte, um quarto reino da Natureza; daí certos modos de raciocinar que teriam causado espanto em outra ciência. Hoje não se podem mais ler oito ou dez linhas dessa época sem se ficar surpreendido pelas excentricidades do pensamento e dos termos empregados para justificá-las.
      Do ponto de vista metodológico, porém, há certo interesse em conhecer esses erros: os erros duma ciência que principia constituem a imagem ampliada daqueles que cometem os indivíduos empenhados nas primeiras pesquisas científicas; teremos ocasião de assinalar vários deles no decorrer de nossa exposição.
      Somente em 1870 aproximadamente foi que se indagou quais seriam as condições de vida das línguas. Percebeu-se então que as correspondências que as unem não passam de um dos aspectos do fenômeno linguístico, que a comparação não é senão um meio, um método para reconstituir os fatos.
      A Linguística propriamente dita, que deu à comparação o lugar que exatamente lhe cabe, nasceu do estudo das línguas românicas e das línguas germânicas. Os estudos românicos, inaugurados por Diez (sua Gramática das Línguas Românicas data de 1836-1838), contribuíram particularmente para aproximar a Linguística do seu verdadeiro objeto. Os romanistas se achavam em condições privilegiadas, destonhecidas dos indo-europeístas; conhecia-se o latim, protótipo das línguas românicas; além disso, a abundância de documentos permitia acompanhar pormenorizadamente a evolução dos idiomas. Essas duas circunstâncias limitavam o campo das conjecturas e davam a toda a pesquisa uma fisionomia particularmente concreta. Os germanistas se achavam em situação idêntica; sem dúvida, o protogermânico não é conhecido diretamente, mas a história das línguas que dele derivam, pode ser acompanhada com a ajuda de numerosos documentos, através de uma longa sequência de séculos. Também os germanistas, mais próximos da realidade, chegaram a concepções diferentes das dos primeiros indo-europeístas.
      Um primeiro impulso foi dado pelo norte-americano Whitney, autor de A Vida da Linguagem (1875). Logo após se formou uma nova escola, a dos neogramáticos (Junggram­matiker) cujos fundadores eram todos alemães: K. Brugmann, H. Osthoff, os germanistas W. Braune, E. Sievers, H. Paul, o eslavista Leskien etc. Seu mérito consistiu em colocar em perspectiva histórica todos os resultados da comparação e por ela encadear os fatos em sua ordem natural.

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