CARACTERÍSTICAS DO SIGNO LINGUÍSTICO
1. A arbitrariedade do signo.
Uma das teses mais controvertidas de
Saussure é a que afirma ser o signo linguístico arbitrário: “o vínculo que une
o significante ao significado é
arbitrário” (Saussure, 1972). Assim, o significado “boi” tem diferentes
significantes em diferentes línguas:
A
palavra arbitrário significa duas
coisas diferentes: em primeiro lugar, ela nos diz que não há nenhum tipo de
relação intrínseca ou de causalidade necessária entre os diferentes planos de
expressão acima apresentados e o plano de conteúdo que elas traduzem; em
segundo lugar, a palavra arbitrário
não significa que o PE (plano de expressão) dependa da livre escolha do
falante, visto que nenhum indivíduo pode mudar o signo estabelecido pelo seu
grupo linguístico. Arbitrário equivale melhor a imotivado, já que o significante não guarda nenhum vínculo de tipo
natural com o significado (Saussure, 1972. 101).
Mas,
pergunta-se Saussure, não existiria esse vínculo natural nos estágios mais arcaicos
das línguas? Nas onomatopeias, por exemplo, que são elementos cujo PE se forma
a partir dos sons evocados?
Comparando-se diferentes vozes de animais vê-se que até mesmo as onomatopeias se sujeitam à especial reconfiguração que cada língua lhes imprime.
PC PE
Voz
do cuco português cuco
francês coucou
latim cuculus
inglês cuckoo
alemão kuckuck
francês coucou
latim cuculus
inglês cuckoo
alemão kuckuck
Voz
do cão português
au au
espanhol guau guau
francês ouaoua
alemão wauwau
espanhol guau guau
francês ouaoua
alemão wauwau
Voz
do gato português miar
francês miauler
alemão miauen
inglês to mew
francês miauler
alemão miauen
inglês to mew
Com efeito, se cada signo fosse apenas uma
imitação do seu objeto, esse signo seria explicável em si mesmo,
independentemente de outros signos e não teria nenhum tipo de relação interna
necessária para com os demais signos da língua (Cf. Ducrot-Todorov, 1972). É o
que expressa Reznikov (1972) quando escreve que “a falta de vínculos naturais e
de semelhança entre signos e objeto designado e a constatação de uma certa
arbitrariedade em suas relações não só não supõem um obstáculo para a
importante função que o signo desempenha no processo cognoscitivo, senão que
constituem a condição necessária para a formação de noções que reflitam adequadamente os objetos e fenômenos
(...) em seus aspectos gerais e essenciais”.
Pode-se distinguir, como faz Saussure (1972)
entre um arbitrário absoluto e um arbitrário relativo (Cf. Ducrot-
Todorov, 1972): o primeiro refere-se à instituição do signo tomado isoladamente e o segundo refere-se à instituição do
signo enquanto elemento componente de uma estrutura linguística, sujeito,
portanto, às constrições do sistema. Num exemplo claro, é graças à existência,
na língua portuguesa, de uma forma produtiva como o sufixo verbal [-ou] para o
pretérito que Carlos Drummond de Andrade pôde produzir, por analogia com “amar/amou”,
o neologismo “almou” (in Amar-Amara):
Por que amou, por
que almou
proibido passear
sentimentos
etc.
Nas palavras compostas e nas formas
flexionadas existe uma motivação relativa já que elas “se constroem sempre de
modo idêntico para representar idênticas relações de significados” (Dinneen,
1970).
O que é importante destacar nesta lição de
Saussure é que a substância do conteúdo e a substância da expressão não contam,
absolutamente, como tais, para a fundação do signo e da função linguística: o
que conta é a combinação delas para criar uma forma, coisa que Saussure mesmo
explicita quando afirma serem igualmente psíquicas as duas partes do signo. (Cf.
Malmberg, 1968) Um sistema linguístico combina diferenças de sons com
diferenças de idéias, e assim instaura um sistema de valores. A característica
da instituição linguística é manter o paralelismo entre
esses dois tipos de diferenças, de tal modo que a mudança efetuada num desses
planos repercuta perceptivelmente no outro plano.
A linguística, diz Saussure, é, na
realidade, apenas parte de uma ciência geral mais vasta, para a qual propôs o
nome de Semiologia e que estudaria “a
vida dos signos no seio da vida social”. Importa então, no terreno linguístico,
proceder primeiramente à análise do signo. Saussure declara-o arbitrário, verificação de bom senso, sem dúvida, mas que ele formulou, com vigor, à guisa
de princípio. A idéia de boeuf [“boi”] não está ligada por nenhuma relação interior à seqüência
de sons b-ö-f, que lhe serve de
significante; poderia muito bem ser representada por qualquer outra: “a prova
está nas diferenças entre as línguas e na própria existência de línguas diferentes:
o significado ‘boeuf’ tem por significante b-ö-f,
de um lado da fronteira da França, e o-k-s
(Ochs) do outro".
A palavra arbitrário não suscita a ideia de que o significante dependa de uma
livre escolha do falante, mas quer dizer “que ele é imotivado, isto é,
arbitrário com relação ao significado”. Saussure afasta imediatamente uma
objeção: as onomatopeias pareceriam
indicar que a escolha do signo nem sempre é arbitrária, mas as onomatopeias nunca constituem elementos orgânicos de um sistema
linguístico; aliás, são pouco numerosas e sua escolha (cf. glu-glu, tique-taque, ...) já é, de algum modo, arbitrária, pois
elas constituem, na realidade, apenas “a imitação aproximativa e meio
convencional de certos ruídos (compare-se o francês ouaoua com o alemão wauwau).
Além disso, uma vez introduzidas na língua, são mais ou menos arrastadas na evolução
fonética, morfológica, etc. que sofrem as outras palavras (cf. pigeon, do latim vulgar pipio, ele próprio derivado de uma
onomatopeia): prova evidente de que perderam algo de seu caráter primeiro para
assumir o do signo linguístico em geral, que é imotivado".
Saussure, todavia, atenuou o caráter
absoluto de sua declaração acerca da arbitrariedade do signo, admitindo que há
no mecanismo da língua certos casos em que “o signo pode ser relativamente
motivado. Assim, vinte é motivado,
mas dezenove não o é no mesmo grau,
porque evoca os termos de que se compõe e outros que lhe são associados, por
exemplo, dez, nove, vinte e nove, dezoito [...], etc., assim também, o
sufixo -eira de pereira em face de pera faz pensar em cerejeira, macieira,
etc.; trata-se aqui de uma motivação morfológica e semântica que aparece em
graus diversos segundo os sistemas linguísticos: o francês moderno, por
exemplo, aparece como particularmente "arbitrário" graças a
diferentes fatores, como os empréstimos eruditos (vejam-se os pares aveugle/cecité, eau/aqueux, etc.) ou a pobreza da composição
(continent, gant diante do alemão Erd-teil,
Hand-schuh, etc.).
É bom observar ainda que o emprego da
palavra signo conduziu por vezes a exposição de Saussure, e, mais tarde, a de
seus comentadores, a certa ambiguidade. Em realidade, após algumas hesitações,
Saussure decidiu-se a substituir conceito
por significado e imagem acústica por significante e reservou o termo signo
para designar o total resultante da associação de um significante a um
significado; segundo sua fórmula “o signo linguístico é, pois, uma entidade
psíquica de duas faces”, isto é, composto de uma imagem acústica (o
significante) e de um conceito (o significado). É em virtude desta definição que
Saussure declara que o signo linguístico é arbitrário, vale dizer, imotivado.
Pois, por um lado, os significados (conceitos) formam um dado que percebemos
pelos sentidos e, por outro, os significantes (imagens fônicas) nos são
impostos pela pressão social no interior de uma mesma comunidade linguística e
formam um sistema relacional entre si. A palavra é arbitrária com relação ao significado, mas não há arbitrariedade
com relação ao sistema.
2. A linearidade dos significantes.
A segunda das características essenciais do
signo linguístico, também apontada por Saussure, refere-se ao caráter linear do
seu plano de expressão. Logo ao início do CLG, lemos: “Por ser de natureza
auditiva, o significante se desenvolve unicamente no tempo e apresenta as características
que toma do tempo: (a) representa uma
extensão; e (b) essa extensão é
mensurável numa única dimensão; ela é uma linha” (Saussure, 1972).
Essa linearidade, que constitui a extensão
da cadeia falada e com base na qual cada elemento do plano de expressão de uma
língua se coloca, é o que permite distinguirmos conceitos tais como o de sílaba
(baseada num contraste entre consoantes e vogais), e o de distribuição.
O significante, sendo de natureza fônica,
desenrola-se unicamente no tempo e, por conseguinte, representa uma extensão
mensurável numa só dimensão. O mecanismo inteiro da língua depende desse
princípio, que é um dos fatores que permitem a classificação dos segmentos linguísticos.
“Por oposição aos significantes visuais (sinais marítimos, etc.) que podem
oferecer complicações simultâneas em várias dimensões, os significantes
acústicos dispõem apenas da linha do tempo; seus elementos apresentam-se um após outro, formando uma cadeia. Esse caráter
aparece imediatamente, tão logo sejam representados pela escrita e se substitua
a linha espacial dos sinais gráficos pela sucessão no tempo.” É assim que às
solidariedades de ordem sintagmática (isto é, linear) opõem-se solidariedades
de ordem associativa: “Dix-neuf (dezenove) é solidário,
associativamente, de dix-huit
(dezoito), soixante-dix (setenta),
etc. e, sintagmaticamente, de seus elementos dix (dez) e neuf (nove)...
Essa dupla relação lhe confere parte de seu valor”.
2. 1. A Noção de
Distribuição.
As unidades linguísticas aparecem em
contextos e submetem-se às suas pressões: as partes dependem do todo de que
participam. Dentro de uma frase as palavras não se dispõem ao acaso, mas em
posições determinadas: o artigo, por exemplo, tem em romeno e em português a
propriedade de se colocar sempre junto do substantivo com o qual forma
sintagmas nominais; mas dentro do SN (sintagma nominal) o artigo português vem anteposto ao substantivo (cf. “o lobo”),
ao passo que o artigo romeno se pospõe
ao nome ao qual se refere (cf. lupul,
“o lobo”). Diz-se, por isso, que os elementos possuem uma distribuição característica.
3. A dualidade
língua/fala.
Uma distinção capital, e particularmente
fecunda, foi formulada pelo mestre de Genebra entre a língua e a fala: a língua
é o conjunto que serve de meio de compreensão entre os membros de uma mesma
comunidade linguística; enquanto a é o uso que cada membro dessa comunidade linguística
faz da língua para se fazer compreender; em outras palavras, a língua é “um
sistema cujos termos são todos solidários e em que o valor de um não, resulta senão
da presença simultânea dos outros”, ao passo que a fala é o ato concreto e
individual das pessoas, quando utilizam o sistema numa situação determinada.
Vê-se então que a língua é “um tesouro depositado pela prática da fala nos
indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade, um sistema gramatical que
existe virtualmente em cada cérebro, ou, mais exatamente, nos cérebros de um
conjunto de indivíduos”, é concebida, ao mesmo, tempo, como uma instituição
social e como um sistema de valores.

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