Thursday, October 20, 2016

CARACTERÍSTICAS DO SIGNO LINGUÍSTICO


1. A arbitrariedade do signo.
Uma das teses mais controvertidas de Saussure é a que afirma ser o signo linguístico arbitrário: “o vínculo que une o significante ao significado é arbitrário” (Saussure, 1972). Assim, o significado “boi” tem diferentes significantes em diferentes línguas:
A palavra arbitrário significa duas coisas diferentes: em primeiro lugar, ela nos diz que não há nenhum tipo de relação intrínseca ou de causalidade necessária entre os diferentes planos de expressão acima apresentados e o plano de conteúdo que elas traduzem; em segundo lugar, a palavra arbitrário não significa que o PE (plano de expressão) dependa da livre escolha do falante, visto que nenhum indivíduo pode mudar o signo estabelecido pelo seu grupo linguístico. Arbitrário equivale melhor a imotivado, já que o significante não guarda nenhum vínculo de tipo natural com o significado (Saussure, 1972. 101).
Mas, pergunta-se Saussure, não existiria esse vínculo natural nos estágios mais arcaicos das línguas? Nas onomatopeias, por exemplo, que são elementos cujo PE se forma a partir dos sons evocados?
Comparando-se diferentes vozes de animais vê-se que até mesmo as onomatopeias se sujeitam à especial reconfiguração que cada língua lhes imprime.

PC                            PE
Voz do cuco            português            cuco
                                  francês                  coucou       
                                  latim                     cuculus
                                  inglês                   cuckoo       
                                  alemão                 kuckuck
                 
Voz do cão              português            au au
                                  espanhol             guau guau     
                                  francês                 ouaoua     
                                  alemão                 wauwau                    

Voz do gato            português            miar
                                 francês                  miauler     
                                 alemão                 miauen      
                                 inglês                   to mew

Com efeito, se cada signo fosse apenas uma imitação do seu objeto, esse signo seria explicável em si mesmo, independentemente de outros signos e não teria nenhum tipo de relação interna necessária para com os demais signos da língua (Cf. Ducrot-Todorov, 1972). É o que expressa Reznikov (1972) quando escreve que “a falta de vínculos naturais e de semelhança entre signos e objeto designado e a constatação de uma certa arbitrariedade em suas relações não só não supõem um obstáculo para a importante função que o signo desempenha no processo cognoscitivo, senão que constituem a condição necessária para a formação de noções que reflitam adequadamente os objetos e fenômenos (...) em seus aspectos gerais e essenciais”.
Pode-se distinguir, como faz Saussure (1972) entre um arbitrário absoluto e um arbitrário relativo (Cf. Ducrot­- Todorov, 1972): o primeiro refere-se à instituição do signo tomado isoladamente e o segundo refere-se à instituição do signo enquanto elemento componente de uma estrutura linguística, sujeito, portanto, às constrições do sistema. Num exemplo claro, é graças à existência, na língua portuguesa, de uma forma produtiva como o sufixo verbal [-ou] para o pretérito que Carlos Drummond de Andrade pôde produzir, por analogia com “amar/amou”, o neologismo “almou” (in Amar-Amara):
Por que amou, por que almou
se sabia
proibido passear sentimentos
etc.
Nas palavras compostas e nas formas flexionadas existe uma motivação relativa já que elas “se constroem sempre de modo idêntico para representar idênticas relações de significados” (Dinneen, 1970).
O que é importante destacar nesta lição de Saussure é que a substância do conteúdo e a substância da expressão não contam, absolutamente, como tais, para a fundação do signo e da função linguística: o que conta é a combinação delas para criar uma forma, coisa que Saussure mesmo explicita quando afirma serem igualmente psíquicas as duas partes do signo. (Cf. Malmberg, 1968) Um sistema linguístico combina diferenças de sons com diferenças de idéias, e assim instaura um sistema de valores. A característica da instituição linguística é manter o paralelismo entre esses dois tipos de diferenças, de tal modo que a mudança efetuada num desses planos repercuta perceptivelmente no outro plano.
A linguística, diz Saussure, é, na realidade, apenas parte de uma ciência geral mais vasta, para a qual propôs o nome de Semiologia e que estudaria “a vida dos signos no seio da vida social”. Importa então, no terreno linguístico, proceder primeiramente à análise do signo. Saussure declara-o arbitrário, verificação de bom senso, sem dúvida, mas que ele formulou, com vigor, à guisa de princípio.  A idéia de boeuf [“boi”] não está ligada por nenhuma relação interior à seqüência de sons b-ö-f, que lhe serve de significante; poderia muito bem ser representada por qualquer outra: “a prova está nas diferenças entre as línguas e na própria existência de línguas diferentes: o significado ‘boeuf’ tem por significante b-ö-f, de um lado da fronteira da França, e o-k-s (Ochs) do outro".
A palavra arbitrário não suscita a ideia de que o significante dependa de uma livre escolha do falante, mas quer dizer “que ele é imotivado, isto é, arbitrário com relação ao significa­do”. Saussure afasta imediatamente uma objeção: as onomatopeias pareceriam indicar que a escolha do signo nem sempre é arbitrária, mas as onomatopeias nunca constituem elementos orgânicos de um sistema linguístico; aliás, são pouco numerosas e sua escolha (cf. glu-glu, tique-taque, ...) já é, de algum modo, arbitrária, pois elas constituem, na realidade, apenas “a imitação aproximativa e meio convencional de certos ruídos (compare-se o francês ouaoua com o alemão wauwau). Além disso, uma vez introduzidas na língua, são mais ou menos arrastadas na evolução fonética, morfológica, etc. que sofrem as outras palavras (cf. pigeon, do latim vulgar pipio, ele próprio derivado de uma onomatopeia): prova evidente de que perderam algo de seu caráter primeiro para assumir o do signo linguístico em geral, que é imotivado".
Saussure, todavia, atenuou o caráter absoluto de sua declaração acerca da arbitrariedade do signo, admitindo que há no mecanismo da língua certos casos em que “o signo pode ser relativamente motivado. Assim, vinte é motivado, mas dezenove não o é no mesmo grau, porque evoca os termos de que se compõe e outros que lhe são associados, por exemplo, dez, nove, vinte e nove, dezoito [...], etc., assim também, o sufixo -eira de pereira em face de pera faz pensar em cerejeira, macieira, etc.; trata-se aqui de uma motivação morfológica e semântica que aparece em graus diversos segundo os sistemas linguísticos: o francês moderno, por exemplo, aparece como particularmente "arbitrário" graças a diferentes fatores, como os empréstimos eruditos (vejam-se os pares aveugle/cecité, eau/aqueux, etc.) ou a pobreza da composição (continent, gant diante do alemão Erd-teil, Hand-schuh, etc.).
É bom observar ainda que o emprego da palavra signo conduziu por vezes a exposição de Saussure, e, mais tarde, a de seus comentadores, a certa ambiguidade. Em realidade, após algumas hesitações, Saussure decidiu-se a substituir conceito por significado e imagem acústica por significante e reservou o termo signo para designar o total resultante da associação de um significante a um significado; segundo sua fórmula “o signo linguístico é, pois, uma entidade psíquica de duas faces”, isto é, composto de uma imagem acústica (o significante) e de um conceito (o significado). É em virtude desta definição que Saussure declara que o signo linguístico é arbitrário, vale dizer, imotivado. Pois, por um lado, os significados (conceitos) formam um dado que percebemos pelos sentidos e, por outro, os significantes (imagens fônicas) nos são impostos pela pressão social no interior de uma mesma comunidade linguística e formam um sistema relacional entre si. A palavra é arbitrária com relação ao significado, mas não há arbitrariedade com relação ao sistema.

2. A linearidade dos significantes.

A segunda das características essenciais do signo linguístico, também apontada por Saussure, refere-se ao caráter linear do seu plano de expressão. Logo ao início do CLG, lemos: “Por ser de natureza auditiva, o significante se desenvolve unicamente no tempo e apresenta as características que toma do tempo: (a) representa uma extensão; e (b) essa extensão é mensurável numa única dimensão; ela é uma linha” (Saussure, 1972).
Essa linearidade, que constitui a extensão da cadeia falada e com base na qual cada elemento do plano de expressão de uma língua se coloca, é o que permite distinguirmos conceitos tais como o de sílaba (baseada num contraste entre consoantes e vogais), e o de distribuição.
O significante, sendo de natureza fônica, desenrola-se unicamente no tempo e, por conseguinte, representa uma extensão mensurável numa só dimensão. O mecanismo inteiro da língua depende desse princípio, que é um dos fatores que permitem a classificação dos segmentos linguísticos. “Por oposição aos significantes visuais (sinais marítimos, etc.) que podem oferecer complicações simultâneas em várias dimensões, os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo; seus elementos apresentam-se um após outro, formando uma cadeia. Esse caráter aparece imediatamente, tão logo sejam representados pela escrita e se substitua a linha espacial dos sinais gráficos pela sucessão no tempo.” É assim que às solidariedades de ordem sintagmática (isto é, linear) opõem-se solidariedades de ordem associativa: “Dix-neuf (dezenove) é solidário, associativamente, de dix-huit (dezoito), soixante-dix (setenta), etc. e, sintagmaticamente, de seus elementos dix (dez) e neuf (nove)... Essa dupla relação lhe confere parte de seu valor”.
2. 1. A Noção de Distribuição.
As unidades linguísticas aparecem em contextos e submetem-se às suas pressões: as partes dependem do todo de que participam. Dentro de uma frase as palavras não se dispõem ao acaso, mas em posições determinadas: o artigo, por exemplo, tem em romeno e em português a propriedade de se colocar sempre junto do substantivo com o qual forma sintagmas nominais; mas dentro do SN (sintagma nominal) o artigo português vem anteposto ao substantivo (cf. “o lobo”), ao passo que o artigo romeno se pospõe ao nome ao qual se refere (cf. lupul, “o lobo”). Diz-se, por isso, que os elementos possuem uma distribuição característica.


3. A dualidade língua/fala.
Uma distinção capital, e particularmente fecunda, foi formulada pelo mestre de Genebra entre a língua e a fala: a língua é o conjunto que serve de meio de compreensão entre os membros de uma mesma comunidade linguística; enquanto a é o uso que cada membro dessa comunidade linguística faz da língua para se fazer compreender; em outras palavras, a língua é “um sistema cujos termos são todos solidários e em que o valor de um não, resulta senão da presença simultânea dos outros”, ao passo que a fala é o ato concreto e individual das pessoas, quando utilizam o sistema numa situação determinada. Vê-se então que a língua é “um tesouro depositado pela prática da fala nos indivíduos pertencentes a uma mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro, ou, mais exatamente, nos cérebros de um conjunto de indivíduos”, é concebida, ao mesmo, tempo, como uma instituição social e como um sistema de valores.

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