Tuesday, October 25, 2016

A DICOTOMIA LÍNGUA/FALA.

Língua/fala.
          Esta é a dicotomia Saussuriana básica e, juntamente com o par sincronia/diacronia, constitui uma das mais fecundas. Fundamentada na oposição social/individual, revelou-se com o tempo extremamente profícua. O que é fato da língua (langue) está no campo social; o que é fato da fala ou discurso (parole) situa-se na esfera do individual. Repousando sua dicotomia na Sociologia, ciência nascente e já de grande prestígio então, Saussure afirma e adverte ao mesmo tempo: "a linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro".

A língua.
          Do exame exaustivo do Curso, depreendemos três concepções para língua: acervo linguístico, instituição social e realidade sistemática e funcional. Analisemo-las à luz do CLG.
          - A língua como acervo linguístico. A língua é uma realidade psíquica formada de significado e imagens acústicas; "constitui-se num sistema de signos, onde, de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica, onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas"; é "um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou mais exatamente, nos cérebros dum conjunto de indivíduos"; a língua é "uma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos".
          A língua, como acervo linguístico, é "um conjunto de hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender" e "as associações ratificadas pelo consentimento coletivo, e cujo conjunto constitui a língua, são realidades que têm sua sede no cérebro".
          A língua, enquanto acervo, guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência. Disso nos dá testemunho o Latim, símbolo permanente da cultura e das instituições do povo romano.
          - A língua como instituição social. Saussure considera que a língua "não está completa em nenhum indivíduo, e só na massa ela existe de modo completo", por isso, ela é, ao mesmo tempo, realidade psíquica e instituição social. Para Saussure, a língua "é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos"; é "a social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade".
        - A língua como realidade sistemática e funcional. Este é o conteúdo mais importante do conceito saussuriano a respeito da língua.  Para o mestre de Genebra, a língua é, antes de tudo, "um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas; é um código, um sistema, onde, "de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica". Saussure vê a língua como um objeto de "natureza homogênea" e que, portanto, se enquadra perfeitamente na sua definição basilar: "a língua é um sistema de signos que exprimem ideias".
          A fala, ao contrário da língua, Saussure a apresenta  multifacetada e heterogênea. Diz o mestre que "a fala é um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distinguir: 1º) as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal; 2º) o mecanismo psícofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações. Saussure classifica a fala como o "lado executivo" da linguagem, cuja "execução jamais é feita pela massa; é sempre individual e dela o indivíduo é sempre senhor, nós a chamaremos fala". E o completaríamos: fala em oposição a língua. A fala é a própria língua em ação, enérgeia (atividade) e não érgon (produto).
        Aprofundando a base teórica dessa dicotomia fundamental para a compreensão da obra de Saussure, somos levados a reconhecer a influência incontestável e decisiva que o debate entre os dois expoentes da Sociologia de então, Durkheim e Tarde, exerceu sobre ele. Sua dicotomia parece ter sido uma tentativa de conciliação entre as duas posições sociológicas vigentes. Da ideia de fait social (fato social), de Durkheim, procede a postulação da língua, segundo Lepschy (1971): Porque ambas [tanto a ideia de língua, como a de fato social] se referem a fatos psicossoaciais, enxternos ao indivíduo, sobre o qual exercem uma contrainte (coerção), e existentes na consciência coletiva do grupo social.
          Por outro lado, o reconhecimento do elemento individual, a fala, estaria em consonância com as ideias de Gabriel Tarde. É oportuno lembrar também a concepção durkheimiana, segundo a qual a sociedade prima sobre o indivíduo, pois afirma Giani (1975), "o controle social existe em função da manutenção da organização social". O homem não passa de uma parcela do pensamento coletivo, ainda segundo Giani: "o indivíduo é, em grande parte, aquilo que a sociedade espera que ele seja. Cada grupo social incute em seus membros um conjunto de maneiras de pensar, sentir e agir". Diante disso, compreende-se por que razão Saussause atribuiu papel destacado ao estudo da língua e minimizou a fala.
          Para Saussure, sendo a língua uma instituição social, socialmente é que devem ser estudados os seus signos, um vez que "o signo é social por natureza". Considera ele que a língua, como representação coletiva, se impõe ao indivíduo inapelavelmente. Nenhum indivíduo tem a faculdade de criar a língua, nem de modificá-la conscientemente. Ela é como uma armadura dentro da qual nos movimentamos no dia-a-dia da interação humana.. Como qualquer outra instituição social, a língua se impõe ao indivíduo coercitivamente. Por isso, ela constitui um elemento de coesão e organização social.

A fala
      A fala, ao contrário da língua, por se constituir de atos individuais, torna-se múltipla, imprevisível, irredutível a uma pauta sistemática. Os atos linguísticos individuais são ilimitados, não formam um sistema. Os atos linguísticos sociais, bem diferentemente, formam um sistema, pela sua própria natureza homogênea. Ora, a Linguística como ciência só pode estudar aquilo que é recorrente, constante, sistemático. Os elementos da língua podem ser, quando muito, variáveis, mas jamais apresentam a inconstância, a irreverência, a heterogeneidade características da fala, a qual por isso mesmo, não se presta a um estudo sistemático.
          Diz-nos o mestre suiço: Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem, pode-se, enfim, fazer valer o argumento de que a faculdade natural  ou não [e para Saussure o ser natural ou não é irrelevante: preocupa-se unicamente com a língua em si mesma] de articular palavras não se exerce senão com a ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade; não é, então, ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem.
          E, sustentando a autonomia dos estudos da língua, afirma: "a língua é uma coisa de tal como distinta que um homem privado do uso da fala conserva a língua, contanto que compreenda os signos vocais que ouve".
          Não obstante, Saussure insiste sempre na interdependência dos dois constituintes da linguagem:
          ... esses dois  objetos estão estreitamente ligados e se implicam mutuamente: língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos; mas esta é necessária para que a língua se estabeleça.
           E adverte: "historicamente o fato da fala vem sempre antes", É importante, a propósito, registrar a concessão feita por Saussure ao elemento individual, com toda a certeza inspirada em Gabriel Tarde: "é a fala que faz evoluir a língua: são impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nosso hábitos linguísticos".
          É tal a interdependência entre a língua e a fala que Sausurre considere a língua, ao mesmo tempo, instrumento e produto da fala. O próprio mecanismo de funcionamento da linguagem repousa nessa interdependência, como ressalta Saussure: Como se imaginaria associar uma ideia a uma imagem verbal, se não se surpreendesse de início esta associação num ato de fala? Por outro lado, é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna; ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências.
          Depreende-se do arrazoado saussuriano que tanto o funcionamento quanto a exploração das potencialidades da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos língua e fala.
          A feliz dicotomia língua/fala é o ponto de partida para Saussure postular uma Linguística da língua e uma Linguística da fala (embora Mounin levante dúvida a respeito da autenticidade dessa postulação por parte do mestre, Mounin prefere atribui-la a Bally e Sechehaye), sendo que, para o mestre genebrino, a Linguística propriamente dita é aquela cujo único objeto é a língua: "Unicamente desta última é que cuidaremos", ressalva Saussure.
          Desse modo, vemos que Saussure realmente tinha plena consciência da natureza opositiva dos fenômenos linguísticos. Eis suas próprias palavras: "Esta é a primeira bifurcação que se encontra se procura estabelecer a teoria da linguagem".
     
Sistema/Não-Sistema
          A razão de Saussure haver preferido tomar o caminho da língua quando se viu diante de sua famosa bifurcação encontra-se em outra oposição consequente: sistema/não-sistema, isto é, sistema : língua :: não-sistema : fala.
          Sendo o sistema superior ao indivíduo (supra-individual), todo elemento linguístico deve ser estudado a partir de suas relações com os outros elementos do sistema e segundo sua função (a língua é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica), e não por suas características extralinguísticas: físicas, psicológicas, etc. O conhecido exemplo do jogo de xadrez esclarece cabalmente o pensamento saussuriano nesse particular.
          As peças de um jogo de xadrez são definidas unicamente segundo suas funções e de acordo com as regras do jogo. A forma, a dimensão e a matéria de cada peça constituem propriedades puramente físicas e acidentais, que podem variar extremamente sem comprometer a identidade da peça.  Essas características físicas são irrelevantes para o funcionamento do sistema (= o jogo de xadrez). Uma peça até pode ser substituída por outra, desde que a substituta venha a ser utilizada conforme as regras do jogo. Levando para o sistema linguístico o exemplo de Saussure, temos que todo elemento linguístico - uma vogal, uma consoante, um acento, um fonema, um morfema, etc. - deve ser definido linguisticamente apenas de acordo com suas relações (sintagmáticas e paradigmáticas) com os outros elementos ou por sua função no sistema, e não levando-se em conta suas acidentais propriedades: modo de formação, estrutura acústica, variantes morfofonêmicas, etc. Aqui torna-se pertinente introduzir outra postulação saussuriana, segundo a qual
          - "A língua é uma Forma e não uma Substância".
          Forma, para Saussure, é usada no sentido filosófico, isto é, como essência, e não no sentido estético, como aparência. A teia de relações entre os elementos linguísticos é que constitui a forma. Os elementos da rede constituem a substância. Voltando ao exemplo do jogo de xadrez, diríamos que as regras do jogo (a teia de relações entre as peças) estão para forma, assim como as peças do jogo estão para a substância. Uma frase como: "Vô comprá dois pão" apresenta alteração apenas na substância. Sua estrutura, apesar do fator extralinguístico "erro" (desvio em relação  à norma culta), continua a ser a de uma frase da língua portuguesa. Ela conserva toda a gramaticalidade sintática do sistema linguístico português, isto é, da língua portuguesa, e toda a coerência interna inerente aos elementos desse sistema: (sujeito) + verbo auxiliar + objeto (determinante + determinado). Portanto, sua forma, o que é de fato relevante para o funcionamento do sistema, não sofreu em nada com a mudança acidental das propriedades físicas de sua substância. Dito de outro modo: forma : língua :: substância : fala.
          Mesmo tendo dado tanta ênfase ao estudo da língua, Saussure não deixou de tratar também da substância (fala), reconhecendo que a função é fazer a ligação com a forma, que é, em última análise, para ele, a verdade total. Reportando-nos ao pensamento linguístico da Grécia Antiga, diríamos que Saussure admitiu tacitamente que a língua não é só analogia, ela tem também as suas sólidas e saudáveis anomalias.
           Cabe-se entretanto, chamar a atenção para o fato de que, a nosso ver, o conceito de forma (estrutura) não exclui o componente semântico. Ao contrário, o componente semântico é que dá sentido à noção de forma, sem o quê, forma corre o risco de tornar-se letra morta, concepção sem serventia para a ciência linguística, principalmente para a Linguística dita estrutural. Como adverte o Prof. Silvio Elia (1978: 120), "linguagem é significação".
           Desse modo, concebemos forma como coerência sintática + coerência semântica. Coerência sintática (espécie de sintaxe mental ou estruturação do pensamento) existe, por exemplo, tanto em "O menino chutou a bola" como em "A bola chutou o menino". Em ambas as orações, é inegável a realização sintaticamente coerente de um dos padrões frasais básicos da língua portuguesa, isto é, sujeito + verbo + objeto direto. Só a primeira frase, entretanto, encontra correspondência conceitual (feed-back) ou repercussão linguística no espírito do falante, justamente por ser a única que contém uma verdade semântica confiável, uma coerência significativa, que constitui, juntamente com a coerência sintática da frase, um todo individualizador e pertinente do ponto de vista da intercomunicação linguística.

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